Um livro que faz o que ele se propõe a fazer.

Essa é uma frase que flutuou dentro da minha cabeça quando terminei de ler Coração de Aço – primeiro livro da série Executores escrita pelo badalado autor americano Brandon Sanderson (Elantris, série Mistborn entre várias outras obras excelentes) e publicado no final do ano passado pela Editora Aleph, com tradução de Isadora Prospero.

A publicação original ocorreu em 2013, uma época na qual, entre vários subgêneros da fantasia, um já estava muito bem firmado nas prateleiras de best-sellers: a distopia. Víamos o ápice da aceitação de séries como Jogos Vorazes, Maze Runner, e Divergente, que em larga escala atingiam um público cada vez maior.

Mas essa obra não foi feita para ir no embalo da onda, até por que, Coração de Aço aglutina vários outros elementos ao redor do seu enredo, fazendo da distopia somente um plano de fundo bem suave, fugindo da mesmice com o seu tom descompromissado e sem ser raso.

Sanderson é de fato um dos maiores nomes da fantasia atual – e com todos os méritos. Dizem que podemos medir o talento de um escritor quando ele se propõe a escrever algo completamente diferente daquilo que gera a sua fama.

Esse livro adiciona um pouco mais de certeza a essa teoria. Sanderson sai totalmente do seu conforto na fantasia, indo explorar com sua criatividade afiada vários outros gêneros como o suspense, a ficção científica e a já citada distopia, encapsulando tudo no universo dos super-heróis – ou melhor dizendo, super-vilões.

Calamidade

Tudo começou quando surgiu no céu algo brilhante, de cor vermelha, algo que facilmente lembraria uma estrela bem vistosa. Sem nenhum precedente, sem explicação. Essa – vamos tipificar assim – “estrela” foi nomeada Calamidade.

Até aí já estaria tudo bem estranho. Mas o mais inexplicável veio depois: pessoas comuns começaram a desenvolver habilidades únicas após Calamidade surgir no céu. Poderes sobrenaturais extremamente variados que concediam para alguns uma força física inigualável, para outros a capacidade de criar ilusões ou grandes terremotos, manipular o fogo e por aí vai.

Se fomos seguir o senso comum de histórias como os X-Men ou os Inumanos, onde vemos esse tipo de coisa com mais frequência, teríamos o surgimento de vários heróis e também de alguns vilões. Mas em Coração de Aço não foi bem isso que aconteceu.

Os Épicos (as pessoas que ganharam poderes) começaram a subjugar os humanos comuns e tudo o que, até então, havia sido estabelecido pela nossa civilização.

Não existe mais governo, não existem mais instituições de justiça, de leis ou proteção. O que há agora são os épicos, seus poderes devastadores e a sua tirania.


Foi nesse mundo mergulhado em caos, mais precisamente em Nova Chicago, que o jovem David Charleston viu o seu pai ser morto pelo épico dominante – e um dos mais poderosos que se tem notícia, – Coração de Aço. Esse épico tem uma série de poderes: capacidade de voo, invulnerabilidade a quase todas as armas, consegue disparar jatos de energia das mãos e consegue transformar as coisas a sua volta no mais puro aço.

Ao ver seu pai ser assassinado diante de seus olhos e sua cidade ser quase completamente transformada em aço, David jura para si mesmo que um dia irá se vingar de Coração de Aço, e fazê-lo sangrar como o seu falecido pai conseguiu fazer antes do suspiro final.

Anos após todos esses eventos, David, já sendo um adulto, junta-se a um grupo de rebeldes chamado de Executores. Eles dedicam suas vidas a matar épicos e devolver aos poucos a liberdades aos cidadãos comuns. Mas claro, que não será tão simples assim.

 

Um Governo com Punho de Aço e o que a Calamidade Despertou

Sanderson começa a sua narrativa nos mostrando a nova realidade que foi instalada com a chegada dos Épicos. Para isso ele vai desenvolver três princípios distópicos e criar todo um amplo panorama.

O primeiro é a manutenção do poder por uma elite: Coração de Aço é a lei, juiz e executor. Ele destrói e mata segundo a sua vontade, sem escrúpulos e inúmeros épicos já tentaram tomar o seu poder, mas todos foram esmigalhados pela sua força absoluta. Isso também caracteriza o segundo ponto, que é toda essa violência gratuita e generalizada.

Mas esse super-vilão também concede aos cidadãos comuns condições básicas de sobrevivência, como empregos por exemplo. Sanderson deixa bem explícito que o seu vilão opressor tem uma boa noção de como governar, mesmo sendo de uma forma tirânica.

O terceiro é o pessimismo que permeia toda a base da história.

Na verdade, Sanderson é um autor meio pessimista: em Mistborn, por exemplo, o herói da lenda falhou. Em Elantris a grande cidade dos semideuses se torna um grande cemitério amaldiçoado – talvez isso seja o que faz as suas histórias serem tão fascinantes. Essa subversão do heroico ao qual a fantasia sempre se submete.

Em Coração de Aço aparentemente – e isso é martelado repetidamente durante toda a história – no meio dos vários épicos que surgiram não houve nenhum que pensou em usar o seu poder para o bem. Todos se tornaram vilões ou se aliaram a épicos mais poderosos para instalarem uma dominação ainda mais violenta.

Mais para o final da história o autor explana sobre algo que poderia ser a razão para essa completa ausência de bondade entre os épicos, mas até lá é bastante interessante a reflexão de que essa crise pode ter começado bem antes da Calamidade surgir no céu.

A ganância já residia no coração de várias pessoas. Os poderes só tornaram possíveis a escalada dessa grande massa a uma posição de domínio. Sendo assim, a Calamidade só despertou a desumanidade adormecida.

Épicos X Executores – Dualidades Descompromissadas

Há vários detalhes perceptíveis na construção de Coração de Aço, alguns mais visíveis, outros mais soterrados, que fazem esse livro agradar a gregos e troianos.

Sanderson dosou muito bem o teor aventuresco, comprometido com a diversão e o entretenimento do leitor e também fez um bom trabalho com os personagens, criando dualidades para eles e o seu movimento rebelde.

A escrita tem aquela pegada cinematográfica. As descrições precisas fazem as cenas surgirem em nossa mente com mais facilidade. A imagem de Nova Chicago surge com perfeição enquanto os executores vão cumprindo suas arriscadas missões. Tudo regado a cenas de ação eletrizantes e com o clímax na medida.

A relação entre David e os rebeldes é construída aos poucos. Prof, o líder da célula dos Executores que age em Nova Chicago, partilha com David o desejo de vingança contra Coração de Aço. Essa relação é baseada na compreensão: há algo que faz com que o desejo de vingança de ambos os leve até as últimas consequências na tentativa de libertar a cidade – por mais que isso tudo possa não significar uma liberdade pacífica.

Falando em David: tá aí um herói que está levemente desviado do convencional!

Ele não quer se vingar somente de Coração de Aço – ele quer destruir todos os Épicos. Para isso ele acumulou muita informação e estudou as habilidades de cada um, ligando tudo isso as suas fraquezas peculiares – algumas até explicadas com bases científicas cabíveis, dando uma pincelada nas ficção científica hard.

Isso irá fazer de David uma peça valiosa para os Executores – e um personagem na linha dos protagonistas inteligentes, daqueles que fazem as escolhas certas nos momentos certos da narrativa.

David também está longe de ser aquele herói altruísta, movido por um senso de justiça sólido e inquestionável. Nele há somente uma vingança faminta.

Quando olhamos os Executores como grupo encontramos mais disparidade, mais conflitos de ideologias. Principalmente entre David e Megan.

Ela é uma dos Executores, tendo sido recrutada meses antes de David ingressar na equipe. A atração que nosso protagonista sente por ela é automática, e acontece logo no começo de toda a trama.

Megan e David proporcionam um choque de realidades diferentes, e essa divergência de óticas, sob o mesmo prisma da catástrofe e dominação, rende diálogos que promovem um embate de ideias e motivações dentro da cabeça do protagonista e do leitor.

Não há dúvidas quanto a tirania e crueldade de Coração de Aço, mas sempre há aquela máxima do “poderia ser pior”. É nisso que mora o comodismo, e aí que mora a contradição de Megan.

Com tantas faíscas assim seria inevitável uma atração entre eles. Portanto temos sim um romance, mas não como era de se esperar.

Sanderson trabalha muito bem esse romance quase unilateral (para o lado do pobre David) durante toda a narrativa, sem torna-lo aquela coisa maçante, boba, com idas e voltas e que atrapalham o andamento do plot central. Ele foca nesse envolvimento amoroso nos momentos certos, usando-o até como um alívio cômico – assim como as metáforas bizarras que David lança a toda hora.

 

Acima de tudo isso, a melhor qualidade de Coração de Aço é aquela que mencionei no começo desse texto: ele é um livro que faz o que ele se propôs a fazer.

Desde as primeiras linhas é notável que a missão de Sanderson nesse livro foi divertir, trazendo uma história que, mesmo não sendo tão leve assim em seu teor, é contada com habilidade por um autor que sabe o que está fazendo. Guiando o leitor para onde ele deve ir e como ele deve digerir tudo o que está sendo narrado.

Apesar de deixar algumas perguntas no ar, o livro tem o seu desfecho – em uma sequência de ação que simplesmente gruda o leitor na frente das páginas, – mas deixa um gancho para o segundo volume que com certeza será esperado ansiosamente.

Coração de Aço é uma boa pedida para quem quer começar o ano com uma aventura impactante e escrita com excelência.

 

Revisão geral
EXCELENTE
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