Observação: Eu, apesar de um grande admirador e leitor, não sou nenhum especialista da obra do Professor Tolkien. Logo, todas as opiniões e impressões que dissertarei nesta resenha são baseadas na experiência de leitura da história analisada aqui, no material extra presente na edição e em pesquisas pessoais. Produzir esse texto me proporcionou uma evolução considerável sobre o meu pequeno conhecimento sobre a obra de Tolkien e a minha já existente admiração pela sua trajetória de vida. Vamos então a resenha.

O termo “Contos de Fadas” é por si só cheio de significados já bem definidos na cabeça de qualquer pessoa.

A palavra “fada” sempre nos remete ao ser minúsculo, frágil, vindo de uma terra mágica e bela que testifica a existência de algo além da realidade banal que nossos olhos conseguem captar.

Para Tolkien, essas palavras nunca representaram algo tão simples. Sempre há algo mais profundo e amplo envolvido pelos Contos de Fadas; algo que vai além de toda a fragilidade que podemos pré-conceber.

Ele usou uma de suas obras como ferramenta para explanar esse assunto, da melhor forma que ele poderia fazer: nos presenteando com uma bela e simples história.

O livro Ferreiro de Bosque Grande – lançado em 1967 – foi a última obra escrita por Tolkien e publicada com ele ainda em vida. A edição ampliada da editora Martins Fontes, traz vários materiais excepcionais (sobre os quais falaremos mais à frente) e conta com a tradução de Ronald Eduard Kyrmse, tendo sido editada originalmente por Verlyn Flieger e ilustrada por Pauline Baynes.

Seguindo os exemplos de Roverandon e Mestre Gil de Ham, a obra não tem ligação nenhuma com o legendarium da Terra-Média e possui uma importância singular para o cânone de Tolkien. Ela carrega em seu âmago toda uma verdadeira homenagem ao mundo imaginativo que ele chamava de “faerye”, que podia ser visitado por qualquer pessoa, e renderia uma experiência transformadora para a alma.

O conceito grandioso que ele criou em torno desse mundo é refletido de forma simples e direta em uma narrativa que permite ao leitor absorver inconscientemente toda a beleza e os perigos escondidos no que seria um verdadeiro mundo mágico.

A Terra Fada e a quebra de um paradigma

A cada vinte e quatro anos ocorre o maior evento que a aldeia de Bosque Grande promove: o Banquete das Boas Crianças. Nele o grande Mestre Cuca da aldeia prepara um grande bolo que é saboreado pelas crianças escolhidas para participar da celebração.

O bolo é comum até certo ponto: feito com ovos, farinha, açúcar, glacê e muita criatividade para a decoração – isso é de extrema relevância!

O diferencial vem dentro dele. Misturado a massa e ao recheio do bolo sempre há um ingrediente especial, ou algum objeto que uma criança sortuda irá encontrar. Esse objeto concederá a essa criança a capacidade de entrar na Terra-Fada.

Quando saímos da grandiosidade que emana da mitologia da Terra Média e migramos para essas outras histórias de Tolkien quase sempre encontramos essas premissas simples – e ao final da leitura sempre nos surpreendemos em como ele consegue desenvolver e dotar a sua narrativa de significados mais profundos.

Em Ferreiro de Bosque Grande temos uma história que sai do tom mais aventuresco que vemos em Roverandom ou da mescla aventura-humor que encontramos em Mestre Gil de Ham. Ferreiro (o personagem) era uma das crianças do Banquete das Boas Crianças e, sem saber, ele engoliu a estrela de prata – um artefato vindo da Terra-Fada – que estava escondida e sua fatia de bolo. Ao se tornar adulto, ele começou a fazer excursões pela Terra-Fada, pois a estrela lhe concedia esse dom.

A narrativa do livro nos leva a conhecer as maravilhas vistas por ele nessa Terra mágica. Nem tudo que é apresentado interage com o protagonista – em alguns momentos ele não passa de um mero expectador amedrontado.

Tolkien nos descreve tudo com simplicidade, mas sem deixar de lado o seu toque criativo em cada uma das paisagens e seres que Ferreiro vê do outro lado.

A Terra-Fada é exuberante e aterrorizante ao mesmo tempo. Se fossemos comparar ela seria como o País das Maravilhas (hostil para qualquer mente sã, apesar de belo) visitado pela Alice de Carrol – mas em Ferreiro há um motivo bem definido de por que o protagonista não é uma criança mas sim um adulto, e isso vai inferir diretamente sobre como Tolkien interpretava os contos de fadas.

O Faerye de Tolkien

Em 2013 tivemos a publicação no Brasil de Árvore e Folha, obra na qual vemos o ensaio Sobre Contos de Fadas escrito por Tolkien na década de 30 e publicado em 1964. Nesse livro temos toda a abordagem acadêmica que o autor fez sobre os contos de fadas e como a sua definição é mais complexa do que aparenta. Ele aborda também como essa forma de contar histórias vem se transformando ao longo dos anos.

Ferreiro de Bosque Grande é como uma aplicação de suas teses em uma história propriamente dita. Tolkien sempre acreditou que os contos de fadas não eram propriamente para crianças, mas sim para adultos.

Ao acompanharmos a solitárias expedições de Ferreiro a Terra-Fada vemos um adulto deslumbrado diante daquelas coisas que ele jamais imaginaria que poderia coexistir com a sua realidade tão singela. Ele tenta narrar todas aquelas maravilhas para as pessoas, mas como era de se esperar, não há a compreensão ou pelo menos um interesse maior.

Ferreiro não é tratado na Terra-Fada como um escolhido, um humano especial. Nenhum ser mágico vem até ele explicar os acontecimentos ou fenômenos que regem aquelas terras. Ele é só um mero expectador.

O autor nos faz mergulhar nessa história como fez ao seu protagonista. Ele quer que o leitor entenda por si só como um mundo imaginário pode transformar a vida de um humano já feito e, consequentemente, transformar as pessoas que acreditam no poder das histórias.

Ferreiro de Bosque Grande também nos transmite a ideia de presentes ou dons que nos são dados, e que da mesma forma gratuita que eles chegam a nós, devemos abrir as mãos e deixá-los ir.

Nessa parte é possível fazer uma ligação do artefato mágico central da história a imagem do Um Anel de O Senhor dos Anéis, pois Ferreiro tem dificuldade para largar o seu dom, o seu presente brilhante que lhe permite contemplar a Terra-Fada.

Largá-lo lhe causa dor e podemos sentir leves traços de um egoísmo e um apego demasiado – muito similar ao vínculo entre Frodo e Bilbo ao Anel que a todos governa. Fica implícita essa mensagem puramente direcionada a desconstrução do apego material e a valorização das vivências.

Tolkien mostra como os contos de fadas podem ir direto as naturezas mais adultas de um ser humano.

Um pouco mais próximo do mestre

Ferreiro de Bosque Grande nasceu em um momento difícil para Tolkien. Ele tinha que fazer algo que detestava: escrever uma apresentação para uma obra de outro autor. A obra em questão era The Golden Key do autor George MacDonald.

Ele achava completamente desnecessário a presença de uma “apresentação” em qualquer obra literária que fosse, pois ela podia contaminar antecipadamente a relação do leitor com o livro – algo que deve permanecer intocado até a leitura do último ponto final.

A edição da wmf Martins Fontes nos traz materiais extras repletos de informações interessante (como essa que citei acima). Vão desde o “gênese da história” Ferreiro de Bosque Grande a até rascunhos e transcrições da obra quando ela ainda era intitulada O Grande Bolo.

Um dos extras mais interessantes é o posfácio escrito por Verlyn Flieger onde ele explana sobre toda a simbologia da obra e sobre o seu peso como última obra do mestre da fantasia.

A leitura desse material – que representa boa porcentagem do volume da edição – é altamente recomendada para aqueles que querem se aprofundar um pouco mais sobre a escrita do Professor. Mas se você não se interessar, não tem problema algum: somente a leitura de Ferreiro de Bosque Grande já poderá lhe render um contato com uma história carregada de pureza e expressividade.

Quando percebemos que esse foi o último livro escrito por Tolkien, conseguimos estabelecer a ligação de Ferreiro e o seu criador, o próprio Tolkien.

É como se fosse a despedida dele a sua Terra Fada, a todos os mundos, personagens e histórias que ele criou, uma despedida a arte de criar e contar histórias em si.

Ferreiro de Bosque Grande é uma história encantadora, fruto de uma imaginação que moldou a fantasia de uma forma única.

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