EDGAR ALLAN POE_CAPA_FRENTE_HISTORIAS_EXTRAORDINARIAS_CAFE_ESPADASEdgar Allan Poe é um contista que dispensa apresentações. Amplamente conhecido por suas histórias curtas, fascinantes, sempre envoltas em uma atmosfera perturbadora que conduz o leitor através do inimaginável.

Morte é sempre um tema recorrente nos contos góticos do autor, nesse grupo estão as histórias mais conhecidas. Mas em sua carreira ele não se restringiu a isso, sendo que a morte é somente um estado do qual ele deriva várias outras torrentes ardilosas de se trabalhar, que sugariam até a última gota de talento de qualquer outro autor.

Transitando entre terror, sátira, suspense policial e o romantismo sombrio, a obra do autor tem sempre uma característica marcante, uma assinatura de Poe: a engenhosidade literária com a qual ele cria um longo suspense que culmina em desfecho que choca o seu expectador. Algo que parece mais uma dança macabra entre autor e leitor.

Falar de Poe é fácil, mas mergulhar em seu universo angustiante é algo bem mais hercúleo. Histórias Extraordinárias é uma das mais famosas antologias de seus contos e por aqui possui várias edições, publicadas por diversas editoras. Todas possuem praticamente os mesmos contos, mudando a ordem, retirando um ou outro conto.

A que serve de base para essa resenha é a publicada pela Editora Nova Fronteira e traduzida por Clarice Lispector.

Histórias Extraordinárias é uma leitura carregada de tudo que é inerente a Edgar Allan Poe. Algumas histórias são indigestas, difíceis; outras nos fazem até rir, e outras nos arrepiam os pelos da nuca. Mas todas trazem consigo a genialidade e o brilhantismo de um escritor que sabia manipular minunciosamente as palavras e as emoções de quem as lê.

Vamos a alguns dos melhores contos dessa coletânea:

O Gato Preto (1843)

Em O Gato Preto, Poe constrói um relato frio e cru sobre um homem banal, com uma vida pacífica e abundante em prazeres simples, puros e preenchido por amores incondicionais – como o dos animais.

No entanto o vício do álcool muda completamente todas os ares dessa vida pacata.

A volatilidade da narrativa é sentida gravemente e chega a ser apavorante a forma súbita como tudo se transforma.

A frieza, a ausência de qualquer remorso, mesmo diante dos eventos que estão além da compreensão comum deixam a essência da escrita de Poe muito transparente.

Este conto irá proporcionar um misto de sensações não necessariamente boas, ou não daquelas que esperamos em uma leitura. Mas o curtíssimo conto é uma boa introdução a esta coletânea.

A Máscara da Morte Rubra (1842)

Nesta história curtíssima, Edgar Alan Poe cria um pequeno reino que está sendo devastado pela Peste Rubra, uma doença terrível, que dizima a população irreversivelmente. O príncipe – um personagem inominado – diante de tal perigo, toma uma atitude extremamente egocêntrica e cruel, evidenciando sua frieza e a perversidade – duas essências sempre presentes em vários personagens criados por Edgar.

A Máscara da Morte Rubra enaltece a onipresença e a implacabilidade da morte, que não reconhece o poder de muralhas – seja as feitas de concreto ou as estabelecidas pelas castas sociais – e nem faz distinção entre quem vive sob o julgo da riqueza e da pobreza.

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O Caso do Valdemar (1845)

Seria possível manter um moribundo em estado de hipnose a fim de prolongar-lhe a vida?

Transmutando de um relato analítico de um especialista em hipnose para o discurso que só quem esteve diante do inexplicável pode proferir, O Caso do Valdemar brinca com essa possibilidade de controle da mente sobre o corpo.

Poderia a morte ser nada mais que uma simples indução mental que, se bloqueada, levaria o indivíduo a alcançar a tão ansiada imortalidade? Sabemos que isso em vieses práticos é simplesmente impossível, mas enquanto lemos as linhas deste conto de Poe, somos levados pelo vislumbre macabro da possibilidade. E talvez, a morte seja algo bem mais misericordioso.

Manuscrito encontrado numa garrafa (1833)

Nesse conto, Poe narra um relato aterrador baseado em uma suposta carta encontrada dentro de uma garrafa no mar.

Na carta, um autor anônimo descreve todo o tormento que ele e o capitão da embarcação onde estava passaram durante uma grande tempestade, ambos se tornando os únicos sobreviventes da tragédia.

Após muitos dias à deriva, os restos da embarcação é levado para os Mares do Sul e lá o autor do manuscrito é sugado por um misterioso redemoinho que o leva ao encontro de uma outra embarcação que parece estar perdida em uma dimensão do tempo.

Aqui vemos o autor utilizar principalmente sua habilidade descritiva para passar toda a angustia de uma pessoa comum diante do irracional e do inexplicável.

Esse conto mostra o quão longe podia chegar a imaginação de Poe, e como sua escrita é capaz de fixar uma densa tensão até a última página.

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O Escaravelho de Ouro (1843)

Um suspense policial mesclado com leves doses de terror.

Esse conto mostra a versatilidade de Poe. Assim como os contos A Carta Roubada e Os Crimes na Rua Morgue, o suspense impera durante boa parte da narrativa e nos faz ansiar por outros contos similares do autor.

Na trama, dois amigos encontram um escaravelho que esconde em seu interior um artefato incomum que aponta para uma riqueza ainda maior. O protagonista do conto, junto de seu amigo William Legrand e o seu serviçal Júpiter, partem em uma espécie de “caça ao tesouro” na ilha Sullivan, uma região desértica na Carolina do Sul.

Obsessão e insanidade permeiam toda a narrativa, que também traz várias características de histórias investigativas. Um conto mais leve, mas não menos primoroso.

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No total essa coletânea possui outros 13 contos (18 no total), indo de contos mais famigerados aos mais raros de se achar em antologias. Acima selecionei cinco mais interessantes, para a resenha não ficar muito extensa. Mas obviamente cada conto merece a leitura.

Histórias Extraordinárias reúne o melhor de Edgar Allan Poe em poucas páginas, uma leitura rápida e muito rica para os que buscam uma nova essência para o terror.

Revisão geral
ÓTIMO
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