Acabo de terminar a leitura de O Demonologista e as palavras para tecer a minha opinião sobre esta obra ainda perambulam no meio de uma névoa de dúvidas e suposições.

Reconhecer os erros e acertos que constroem todo o conjunto é a dificuldade mais superficial. Eles são bem evidentes. Complicado é definir se eles se anulam ou se completam. Mas vamos lá.

Quando a DarkSide Books anunciou em 2015 que iria começar a publicar obras de Andrew Pyper por aqui senti aquela ponta de esperança que sempre sinto quando um nome “novo” surge em meio as prateleiras. Principalmente em meio ao gêneros de suspense/terror/horror.

O novo está entre aspas pois Andrew já publica suas obras desde 1996. Kiss Me foi sua obra de estreia e já conseguiu angariar o título de “Livro Notável do Ano” pelo The New York Times. Desde então o autor lançou vários outros títulos, mas por aqui só temos dois até o momento: O Demonologista (tradução de Cláudia Guimarães) e Os Condenados.

Em termos de crítica, as reações a essa obra tendem muito para o mediano, o que não é de se admirar. Ao nos aprofundarmos na leitura de O Demonologista percebemos o quanto o autor soube fundamentar o seu conceito de terror baseando-o na figura máxima representativa do mal e em um discurso unilateral contra o conceito da benevolência divina; o que em uma análise primária rende diálogos proveitosos e uma abordagem diferenciada de outras obras do gênero que estão em alta.

Mas então por que essa obra não atinge uma excelência unânime na opinião geral?

É o que vou tentar explicar baseado na experiência de leitura pela qual Andrew Pyper me fez passar.

Os Portões do Purgatório

David Ullman é um conhecido professor da Universidade de Columbia. Sua fama se deve a sua especialização nos estudos da representatividade da figura do diabo em obras literárias, mais especificamente no poema épico Paraíso Perdido escrito no século XVII pelo autor John Milton.

Uma das principais características de David é uma ironia que ele impõe sobre si: ele não leva a sério a existência do diabo (ou de qualquer outra divindade) mesmo estando em contato constante com obras que garantem a existência de tais seres e enaltece suas capacidades de influenciar a mente e o espírito humano.

Toda a sua tribulação tem início quando ele recebe um convite para ir a Veneza investigar um possível evento sobrenatural que pode pôr em cheque o seu ceticismo e revelar a realidade cabal: demônios e até mesmo o próprio diabo são tão reais quanto os livros afirmam. Logo o que poderia ser somente uma rápida viagem de férias com a sua filha se torna uma terrível jornada e uma frenética corrida contra o tempo.

Como falei anteriormente, o livro é composto de erros e acerto arranjados durante seu desenrolar, narrado em primeira pessoa e muito bem escrito e desenvolvido pelo autor. Aqui já vai um primeiro ponto positivo.

A narrativa de O Demonologista pode ser considerada como arrastada em vários momentos e não se culpe se você sentir esse peso logo nas primeiras páginas. Mas a medida que vamos vendo o avanço e as descobertas de David – que o ajudarão a resolver o grande quebra-cabeças que o sobrenatural lhe impõe – percebemos a boa dosagem de ritmo que move a história.

Sempre que começo uma leitura e vejo que ela será narrada em primeira pessoa tento analisar se escolha foi boa ou não para o conjunto da obra e para a proposta do autor para com o leitor. Nesse caso, Andrew não poderia ter feito escolha mas bem acertada que a de dar ao seu protagonista a capacidade de contar a sua própria história. Isso contribui muito para todo o clima de suspense que acentua os pontos altos da obra.

Ele não te prepara para o horror que está por vir. Você sente quando ele está próximo mas, de súbito, você já se vê imerso nele. Para criar tal imersão durante a leitura, o autor se utiliza da narrativa em primeira pessoa, ministrada hábil e objetivamente nesses momentos. A única falha talvez seja o desfecho de algumas dessas cenas que não correspondem a expectativa criada.

Isso faz com que a obra atinja, ao meu ver, um certo equilíbrio com as partes mais lentas na qual vemos o desenvolvimento dos personagens e de suas relações. Mas reconheço que esse tipo de nuance pode incomodar os mais imediatistas, ou os que esperam por algo mais visceral.

Um protagonista de “vida fácil”?

Após os eventos ocorrido em Veneza, David começa a seguir um rastro de pistas que vão surgindo esporadicamente, enquanto ele tenta lidar com uma grande perda e com as consequências que ela traz para a sua depressão latente. São muitos motivos para nos comovermos com essa busca e por todo o sofrimento que ele irá passar enquanto junta peças de um quebra-cabeças demoníaco para tentar salvar uma alma da perdição final.

No entanto, Pyper nos priva dessa ligação com o protagonista inúmeras vezes durante a trama. O motivo? Sem meias palavras: ele facilita muito a vida de David.

Se ele está diante de algo que não consegue decifrar, eis que surge uma memória de sua filha ainda pequena para lhe mostrar o norte e indicar o próximo passo de sua busca. Tudo é resolvido rapidamente, com uma palavra, com uma gota de sangue em um lugar exato e improvável.

Quando começamos a pegar a proposta de O Demonologista pensamos estar diante de algo parecido com a dinâmica daquele espetacular game Silent Hill – uma mistura precisa de terror e resolução de enigmas complexos, que permitem que o protagonista avance.

Porém o que vemos são algumas cenas de terror, de fato interessantes, complementadas com enigmas que até aparentam inicialmente ter um nível de dificuldade, mas são resolvidos de forma muito simplória por Pyper. Quase todos sem envolver uma ação efetiva de David.

Tudo parece de fato muito conveniente, e toda essa comodidade implica nessa falta de empatia.

A Universalidade do Mal

A forma como Pyper molda a sua concepção de como o mal é abordado na obra de John Milton e a sua relação com as religiões e culturas em geral é algo bem instigante – e outro ponto positivo.

Mesclando informações analíticas com leves toques filosófico, o autor trabalha a ideia da universalidade do mal. Como ele está presente em toda religião uniformemente, enquanto as divindades que representam o bem sempre sofrem alterações e isso, segundo o autor, implicaria em uma presença mais marcante dessas entidades malignas no plano físico.

É uma ideia interessante e, sinceramente, não sei se há alguma base teológica/científica real para isso, mas Pyper faz bom uso dela para sustentar toda a expressiva naturalidade da comunicação com o sobrenatural.

O conhecimento acadêmico acaba por se tornar a principal arma de David dentro da trama. Ele o usa para tentar designar qual é o demônio com o qual ele está lidando. Para isso ele se assume como um real demonologista e usa a obra Paraíso Perdido – e os traços de comportamento bem distintos que John Milton deu para cada demônio integrante da grande cúpula infernal – para decifrar a identidade do seu oponente.

Toda essa investigação ocorre numa trilha mais secundária do enredo e poderia até ter sido mais utilizada pelo autor, mas mesmo assim é bem manuseada e lançada na narrativa em momentos precisos.

Um livro Deslocado

Como falei no começo da resenha, é complicado firmar uma opinião definitiva sobre esse livro. Isso se deve ao fato de ele conversar bem particularmente com cada leitor. De como ele irá trabalhar as expectativas criadas durante a narrativa. Algo que muda constantemente.

O desfecho de O Demonologista não é recheado de ação, de reviravoltas, ou tem uma revelação impactante. Na verdade é bem parado. Mas ele faz algo que poucas obras de terror conseguem fazer hoje em dia: deixar algumas possibilidades e interpretações no ar, para brincar com a imaginação do leitor.

Essa obra traz um ar que os grandes clássicos do terror – como O Exorcista e A Profecia – carregavam consigo.

Entenda, não estou dizendo que a obra de Pyper tem a mesma qualidade que as de Willian Blatty e David Seltzer, mas ela emula várias nuances utilizadas por esses e outros autores mais antigos, como um aprofundamento no psicológico dos seus personagens e uma construção narrativa que preza por uma interação entre os eventos da trama e as escolhas de cada envolvido.

Essa características fogem completamente a linha de boa parte dos romances escritos nos nossos dias e, consequentemente, do que os leitores procuram nos livros de terror hoje em dia.

O Demonologista, em sua singularidades, acaba por se tornar um livro deslocado no seu tempo. Que poderia ser até mais bem aproveitado se tivesse sido publicado 30 ou 40 anos atrás. Não é que a geração de leitores de hoje “não vai entender” essa obra, é somente uma questão de como o livro vai conversar com o seu leitor.

Então, se você deseja de fato acompanhar as desventuras de David Ullman, baixe a bola. Vá com calma e tente tirar o máximo de proveito de toda a experiência de leitura.

Mas se você perceber que esse livro não está te levando por caminhos satisfatórios, que não vão te recompensar no final, então abandone-o e parta para outra leitura, não haverá erro algum nisso.

Revisão geral
BOM
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