A literatura nacional está vivendo o auge de uma grande movimento de auto publicações. Cada vez mais autores divulgam eles mesmos seus trabalhos, valendo-se de plataformas online que possibilitam um contato mais direto com os leitores e, em alguns casos, um alcance digno – claro que não tão abrangente quanto o que a visibilidade de uma grande editora pode garantir, mas ainda assim notável.

Casos de sucesso não são raros. André Vianco, por exemplo, está entre esses ousados escritores que se lançaram no mar bravio e escuro do mercado editorial, em tempos em que o boom da literatura fantástica era algo que ainda estava por vir.

Hoje, ele é um dos autores mais importantes para a fantasia nacional contemporânea e, direta ou indiretamente, encorajou vários outros autores com ótimas histórias à mofar em gavetas.

Entre eles está Cristina Pezel que traz aos leitores a sua obra O Mundo de Quatuorian.

Cristina lançou em 2016 sua obra na plataforma digital de ebook na Amazon e também é possível adquirir uma versão impressa no site da autora.

Quatuorian é o primeiro romance da autora, mas não o seu primeiro trabalho publicado. Ela já escreveu alguns contos urbanos e de ficção científica que foram publicados em revistas especializadas como a Trasgo (o conto Envelope a Écadro saiu na edição número 8 da revista digital) e também premiados – como o conto O Pote, vencedor do prêmio Miró de Literatura de 2014.

Um Mundo Fantástico e Fragmentado

Dividido em quatro porções de terra de dimensões continentais (Probatus, Crystallo, Jucundus e Caldária) o grande mundo de Quatuorian é povoado por seres poderosos e imponentes, pessoas com dons místicos, povos com culturas singulares e mistérios profundos, que constantemente movem os pilares do destino de toda uma civilização.

Há também uma profecia que está prestes a se concretizar: um poderoso inimigo irá surgir em breve e até lá o grande imperador, que governa os quatro reinos, terá que se recolher – mas não sem antes deixar pistas de quando ele irá reaparecer e dar início ao embate com o opositor misterioso.

Essa profecia é o que unirá os protagonistas Teriva, Vinich e Julenis e os impulsionará a não serem somente meros expectadores nos acontecimentos que decidirão o futuro do seu mundo.

Até a percepção de todos esses elementos, a obra parece querer permanecer em uma bolha de conforto, sem aquele toque de originalidade ou algo que conceda um fôlego de renovação para aqueles leitores já mais calejados. Mas é aí que Cristina pode realmente surpreender, pois O Mundo de Quatuorian não é somente a história desses três protagonistas e o seu imperador – há toda uma base imaginativa e um perceptível trabalho criativo por trás dos vários detalhes que estruturam a fantasia proposta pela autora, e isso é o que faz essa obra desviar da trilha comum.

Uma Aventura Diferente por Caminhos já Trilhados

Profecias, reinos, um grande imperador, um grande perigo surgindo no horizonte…

Realmente todos esses ingredientes – ou alguns deles, em proporções variadas – estão presentes em diversas histórias já consagradas. Até em Star Wars encontramos alguns deles. O diferencial vai surgir na forma e na eficácia com a qual o autor irá atingir seu público alvo.

O Mundo de Quatuorian é classificado como fantasia young-adult, e isso já define bem esse público alvo.

A história acompanha os seus protagonistas em um processo de crescimento. A narrativa inicia em suas infâncias indo até a fase adulta. Nesse caso somente em um crescimento físico.

A autora não se aprofunda tanto na personalidade de cada personagem, não esmiúça como a missão deles interfere e modifica suas formas de pensar e ver a realidade que os cerca. Talvez esse seja um dos poucos problemas da narrativa. Teriva e seus aliados têm seu amadurecimento abafados pela problemática da história, pela profecia que eles devem decifrar.

Cristina poderia ter utilizado esse momento de transição tão intenso e feito dele um catalisador para as ações e emoções dos heróis durante sua aventura.

Mas no que o livro parece falhar nessa faceta ele acerta em várias outras.

A escrita da autora é objetiva, concede um respiro compassado para a leitura. Aos poucos detalha o seu mundo, geográfica e politicamente, além de trabalhar o misticismo e os poderes extraordinários que o sustenta. Os apêndices disponibilizados na obra nos ajudam nisso.

Além disso, a obra satisfaz os leitores mais assíduos por momentos de ação, sendo essa cenas bem descritas e empolgantes, como uma leitura desse gênero deve ser.

O enredo tem o seu próprio fim, sem ganchos ou pontas soltas. O mais interessante é que nada impede uma continuação ou um desenvolvimento ainda maior da obra criada, com outros personagens se aventurando em outros lugares de Quatuorian. Quem sabe em breve vemos isso se realizar.

A obra de Cristina pode funcionar como uma boa introdução para o jovem leitor de fantasia, que posteriormente irá atrás de leituras, digamos, mais pesadas.

Não há problema algum em uma obra se propor a ser uma leitura mais leve, introdutória a literatura de fantasia. Várias obras importantes como por exemplo Harry Potter fizeram isso e continuam fazendo sempre.

O Mundo de Quatuorian faz uma mescla agradável: uma leitura leve e engenhosa. Em alguns momentos descompromissada, mas rica em detalhes e ambientada em um mundo fictício igualmente rico e que vale a pena visitar.

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