Determinar que uma obra chegou ao status de “clássico” de algum gênero literário é algo bem arriscado. Ainda mais quando esse clássico brota dentro da tão mal aproveitada (pelas editoras) produção nacional de literatura ficcional. Como determinar se algo é tão bom ao ponto de ser um clássico se não temos acesso fácil e completo ao grande escopo da produção dos nossos autores?

Nosso país possui escritores aos montes que a duras penas tentam divulgar suas obras de forma independente, mas também, geralmente, almejando um bom contrato com uma das grandes editoras nacionais.

Alguns já conseguiram esse feito e hoje compõem o grupo dos autores consagrados. Aqueles que escreveram livros que já ostentam esse status de “clássicos” da ficção nacional – seja em fantasia, ficção científica, ou até mesmo terro/horror. O paulista André Vianco é um deles. Uma interseção dos dois grupos. Ele conseguiu no começo de sua carreira – como outros autores renegados por editoras – se publicar de forma independente até ter o seu espaço dentro de uma grande editora e no supracitado grupo de autores consagrados.

Os Sete é um derivado do seu primeiro romance O Senhor da Chuva publicado em 1998 e mais tarde republicado pela Editora Novo Século. Apesar do que pode se pensar, Andre não começou já explorando a imagem do vampiro logo de início. Anjos e demônios é que estão na raiz do que viria posteriormente. Mas a consagração do autor só viria realmente com a história dos vampiros do D’Ouro.

Além de livros, Vianco escreve roteiros para curtas-metragens (alguns baseados em contos próprios) e histórias em quadrinhos com histórias de origem de alguns de seus personagens. Sua obra é ampla, sempre girando em torno do sombrio. É inegável a sua relevância hoje para fantasia nacional e, sim, deve se ter o respeito pelo seu conjunto da obra.

Agora em 2016, Os Sete volta as prateleiras – desta vez, publicado pela Editora Aleph – acompanhada do apelo comercial para que os fãs “atualizem” suas edições antigas e do glamour que só um clássico consegue emanar. Mas será que os leitores que, assim como eu, nunca haviam tido contato com a obra de Vianco irão encontrar uma obra digna dessa pompa?

A urna de prata e o começo das dores

Se partirmos do falso pressuposto que a obra do autor resume-se a “histórias de vampiros” podemos dizer então que Os Sete foi a sua obra de estreia. E bem antes da onda vampiresca que varreu as livrarias em 2005.

No enredo, acompanhamos a história do descobrimento de uma caravela naufragada no litoral do Rio Grande do Sul. Thiago e César, dois mergulhadores amadores, foram os responsáveis pelo achado, que logo atraiu a atenção do departamento de história da fictícia USPA, Universidade Soares de Porto Alegre.

Em meio a várias relíquias encontradas dentro da caravela, a mais enigmática é uma urna feita de prata datando do século XVI (por volta de 1500) contendo 7 corpos mumificados.

Essa múmias logo se revelam ser os vampiros ao qual o título se refere. Um a um eles vão despertando e causando o caos por onde passam.

A história evolui a partir desse ponto. E aí começam os problemas da obra de André Vianco.

Antes de começar propriamente a análise, uma confissão e uma ressalva aos fãs devotos do autor:

Eu nunca fui muito fã de histórias de vampiro. Não importa a mídia nem o teor da obra. Não sei explicar, simplesmente o fascínio dessa figura mitológica não tem efeito sobre mim. Mas isso não interferiu na minha leitura e opinião sobre Os Sete, e sim vários outros fatores de origem puramente autoral e nada sobrenatural. A ressalva é que eu respeito bastante a obra do Vianco e a importância que ela tem para a fantasia e terror nacional contemporâneo. E ponto.

Personagens pálidos e uma atmosfera de terror bem rarefeita

Uma das coisa mais comuns são os clichês. Eles estão em todas as partes e nas obras de vários autores. Não é defeito uma obra vir e fazer o “feijão com arroz”, claro, mas tem que ser bem feito. Essa uma falha inicial desse livro.

Vianco apresenta os personagens que vão nortear os rumos de sua história logo no começo. Tiago assume o papel de protagonista, o vampiro Guilherme (Inverno) vai no papel de líder do grupo de antagonistas. Os outros vão se agregando aos poucos, alguns sumindo durante a história, outros indo até o fim, como a estudante universitária Eliana, amiga de Thiago.

Acho essencial uma obra ter personagens para os leitor consiga traçar os comportamentos individuais de cada um, reconhecê-los e diferenciá-los uns dos outros. Em Os Sete vemos vários personagens que pensam e agem da mesma forma. Cópias com nomes e funções diferentes no roteiro. Não há a preciosa individualidade. Aquela assinatura do autor em cada engrenagem de sua criação.

Os grupos de personagens apresentam uma série de comportamentos e trejeitos usuais.

Eliana é a única personagem feminina que tem relevância no roteiro. E a relevância que falo é, ser a cobiça do grande vampirão e ser levada de um lado para o outro por Tiago. Ela simplesmente segue as ordens do herói, somente pelo motivo de “toda vez que ela o ouviu, ela se deu bem.”. Donzela demais.

Isso resulta é um desenvolvimento plástico desses personagens, que por sua vez resulta na morte da empatia do leitor para com eles. Você não consegue se preocupar com Eliana e Tiago. Você não consegue sentir medo de Inverno. Esse último sendo uma falha grave.

Esse livro é vendido como uma obra de terror. Mas eu tranquilamente o classificaria como um livro de ação; ou até mesmo aventura. Propaganda enganosa é umas das piores coisas que um livro pode conter.

Inverno e seus irmãos são descritos como os vampiros padrões: pele muito pálida, caninos protuberantes e olhos que brilham como brasas. Adicione a isso poderes como ressuscitar mortos, metamorfose, conjurar tempestades e pronto! Temos Os Sete. Isso não é problema, afinal a figura mitológica do vampiro é uma das que mais sofrem alterações na literatura.

Mesmo com isso, os vampiros de Vianco não conseguem dar aquele “friozinho na espinha”. Mas, acredite, o autor se esforça para gerar uma atmosfera densa de terror em volta deles. Ele tenta fazer isso por meio dos diálogos, das descrições de como os vampiros veem e sentem os mortais – aqui focando sempre em Inverno. Mas tudo soa muito teatral, forçado, com analogias pueris. Simplesmente não dá para engolir e acaba intensificando a sensação de não estarmos lendo um livro de terror.

Um sobe e desce maldito. Um roteiro atacado por muitos vampiros.

Imagine comigo: em que estado ficaria o corpo de uma pessoa que foi atacada por vários vampiros ao mesmo tempo? Exato! Repleta de buracos. Bem, o roteiro de Os Sete parece ter sofrido um furioso ataque de seus próprios monstros.

(Desculpe a comparação anterior, ela foi ridícula.)

A escrita de André Vianco, apesar do que pode se pensar pelo o que eu falei até aqui, é ágil. O problema realmente está na construção do enredo e na cadência de eventos.

O ritmo é uma verdadeira montanha russa: lento, acelerado, lento novamente, arrasta-se como um zumbi e já próximo do fim parece se encontrar e firmar-se – o que rende uma redenção do autor e mostra que a obra se salva no seu desfecho, falarei sobre isso mais a frente.

Após ser libertado da urna maldita, Inverno escapa das instalações da USPA. Nesse meio tempo ele vai se deparar com toda a modernidade dos novos tempos. Depois ele volta as instalações para ressuscitar o vampiro conhecido como Acordador, Manuel. Os dois voltam mais uma vez para ressuscitar o restante… Percebe como isso soa repetitivo? Nessas partes da narrativa o roteiro se arrasta página após página, inclusive nas cenas de ação onde ocorrem confrontos entre os vampiros e os soldados do exército brasileiro.

Inevitavelmente, os furos nesse enredo descompassado começam a surgir. É muito complicado apontar essas lacunas e saídas rápidas sem entregar spoilers, mas vamos tentar.

Sabemos que vampiros são serem sobrenaturais, que podem se mover em alta velocidade entre outras habilidades. Mas acho que isso não justificaria eles praticamente se teleportarem de Porto Alegre para São Paulo sem uma explicação plausível – se você chegar a ler essa parte, irá perceber que até a única explicação que seria aceitável ainda não passa de uma mirabolância.

Outra coisa que é difícil de aceitar é um personagem (Tiago) que passa a história toda fugindo amedrontado, sem ser desenvolvido ou evoluído de forma alguma e, de repente, mostra elementos heroicos que não cabem a ele. Praticamente é como se outro personagem entrasse no lugar do protagonista para assumir o papel de “amigo-amante” de Eliana. Francamente.

Esses problemas saltam aos olhos durante a leitura de Os Sete de forma gritante. Tudo bem que essa foi uma das primeiras obras escritas pelo autor, ele poderia ainda estar atrás de sua forma de contar histórias, mas coesão é elementar, assim como objetividade na narrativa. Se Vianco fosse um pouco mais objetivo, o volume desse livro poderia ser reduzido quase pela metade. Tenho certeza disso.

Tem gente que não acredita em redenção

Mas calma. Se você é um desses fãs alucinados de André Vianco e, a essa altura, já está querendo me trancar dentro de uma urna e me atirar no fundo do Atlântico, você vai poder repensar esse seu impulso violento agora.

Apesar de tudo, Os Sete consegue sim achar um ponto de redenção. Pena que é quase lá no fim, bem depois da metade da obra.

Não é segredo para ninguém que os irmãos vampiros do D’Ouro são despertados. Quando esse evento acontece, a narrativa adquire uma celeridade sutil, mas perceptível. E aí surgem algumas cenas que finalmente trazem algum aspecto de terror.

O autor também traz a história de origem dos vampiros, e ela é interessante, abrindo inúmeros ganchos para a expansão do universo vampírico de autor; coisa que ele já faz e possivelmente continuará fazendo.

Então, se você persistir, for brasileiro de verdade, você consegue chegar na parte boa do livro, mas mesmo com essa última redenção, a obra perde muito no conjunto final. Uma pena realmente.

André Vianco tem uma obra vasta e Sétimo – continuação direta de Os Sete – já está disponível para compra. Sinceramente, não sei se você verá uma resenha dessa continuação aqui no site. Não sei mesmo.

O autor poderá ter evoluído nas obras seguintes, mas junte uma má primeira impressão com o universo de um ser mitológico que não é lá um dos seus prediletos e temos um convite formal para se aventurar em outra leituras, em outros bons autores nacionais ainda não tão consagrados, ainda renegados pelas editoras maiores.

Os Sete é algo que realmente fica agora por sua conta e risco. O aviso dá urna de prata é real e bem válido. Pense bem antes de abrir.

E você já leu Os Sete? Gostou? Não gostou? Deixe a sua opinião aqui em baixo, nos comentários. Se tiver um boa obra sobre vampiros que quiser indicar, fique à vontade.

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1 comentário

  1. Meu amigo, se você achou Os Sete ruim, imagine a gastura que você sentiria se lesse as obras mais recentes do autor. O último dele que li é O Caso Laura, um dos livros mais sem pé nem cabeça que já li. Mas desastroso mesmo é O Caminho do Poço das Lágrimas, um livro que começa no nada e termina em lugar algum.

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