Terramar está secando. A magia está mirrando.

Como uma peste que se alastra em um surto epidêmico, um oblívio vem consumindo a mente de vários magos espalhados pelo mundo.

Os encantamentos somem da lembrança, os cânticos são esquecidos e toda a essência mágica que percorre as veias de Terramar parece está sendo sugada por um ralo misterioso.

Logo toda a civilização do Arquipélago entra em um colapso gradativo: os magos perdem completamente o seu prestígio e tudo que era ligado ao seu ofício – até mesmo as coisas mais banais – perdem o brilho, a vivacidade, como se nunca houvessem existido.

O único lugar que, aparentemente, ainda não foi tocado pela tragédia foi a ilha de Roke e a sua grande Escola de Magos que é comandada por Ged, o Gavião, que agora é o grande arquimago. Quando um jovem príncipe vindo de uma terra distante chega aos portões da escola trazendo as más notícias que se alastram pelo mundo, Ged decide partir em uma missão obscura para tentar desvendar quem – ou o que – está por trás desse mal e revertê-lo de qualquer forma.

Assim começa A Praia mais Longínqua (título da publicação Portuguesa), terceiro volume da excelente série de fantasia Ciclo Terramar escrita pela brilhante Ursulla K. Le Guin. Já falei dos outros dois volumes anteriores dessa série aqui no site – clique aqui para a resenha de O Feiticeiro de Terramar e aqui para a resenha de As Tumbas de Atuan. Vale mencionar que a Editora Arqueiro anunciou recentemente o lançamento de As Tumbas de Atuan. 

Portanto, essa resenha pode conter alguns spoilers, mas são poucos e leves, pode confiar, pois essa saga possui uma linearidade bem espaçada entre seus volumes e ele são ligados por leves ganchos – nada crucial. Se não fosse por eles, os livros da série poderiam ser histórias independentes que se passam no mesmo universo e em fases diferentes da vida do mesmo protagonista.

Esse volume foi publicado originalmente em 1972, quatro anos após O Feiticeiro de Terramar, e no Brasil ganhou o título O Outro Lado do Mundo dentro da antiga Coleção Argonautas (tradução de Eurico da Fonseca). A edição que li foi a publicada em Portugal pela Editorial Presença (tradução de Carlos Grifo Babo) dentro da coleção Estrela do Mar.

 

Aprisionado

A narrativa se inicia com a chegada do príncipe Arren em Roke. O jovem herdeiro do trono de Enlades se auto encarregou de portar as más notícias ao Arquimago Ged.

Partindo de As Tumbas de Atuan a linha do tempo avança alguns anos, revelando para o leitor toda a importância e o poder que o nosso Gavião acumulou durante os anos que se passaram. Mas mesmo cercado por toda a opulência, ele se sente aprisionado. Como grande responsável pela formação do futuros feiticeiros de Terramar, a sensação de estar encarcerado pelos muros de suas responsabilidades visivelmente o consome.

A sua decisão de partir na desnorteada missão de encontrar o núcleo do mal anunciado por Arren não é questionada por nenhum dos outros mestres da Academia; foi como unir o útil ao agradável para o nosso protagonista: sair desse cárcere e cumprir com o seu dever de proteger o Arquipélago.

Apesar de já ser o mago mais importante do mundo, é possível perceber que Ged ainda não se sente – nem está – completo. Assim como nos livros anteriores, ele ainda é uma evolução constante, um personagem brilhantemente moldado e remodelado por Ursulla.

Essa missão será definitiva para ele.

 

Um mundo que se tornou sombrio.

Quando finalmente saem de Roke, Ged e Arren comprovam cada um dos boatos acerca da maldição que se espalha por todas as ilhas.

Em A Praia mais Longínqua Ursulla transforma Terramar em algo mais decadente, mas sem perder o seu deslumbre. As cidades estão decrépitas em vários aspectos – a pobreza e a criminalidade se espalham. Atos abomináveis como a escravidão passam a ser praticados novamente (lembre-se que não estamos nas terras bárbaras de Kargad).

Certamente o leitor que tem as imagens mentais de Terramar descritas nos dois primeiros volumes da série terá um choque ao verem a forma como a autora descreve a situação de vários lugares. Esse recurso foi muito bem trabalhado e funciona com uma pedra na ponta da corda amarrada na perna do leitor, para que ele afunde rapidamente pelo ralo que está sugando toda a beleza desse mundo.

Ged, logo de início, já entende a gravidade do problema, mas duas situações com que ele se depara durante a viagem o atordoam, ao mesmo tempo em que o ajuda a entender melhor a natureza do inimigo que está enfrentando.

A primeira é o encontro com homens e mulheres que já foram grandes magos: agora nada mais do que loucos ou viciados em entorpecentes. A segunda quando ele vai ao encontro dos poderosos Dragões, seres majestosos, portadores de uma sabedoria antiga e um temível poderio mágico, que foram transformados em bestas selvagens, que devoram umas às outras e até se auto destroem.

Dois grandes símbolos de Terramar – os magos e os dragões – são terrivelmente profanados nessa obra. Ursulla não suaviza a sua mão ao descrever cada detalhe dessa degradação, nem o quanto isso abala os seus personagens.

Esse indubitavelmente é o livro mais denso e sombrio da série até o momento.

Vida e Morte – O Ciclo.

Ao longo da jornada a ameaça que ronda Terramar vai mostrando a sua face e o seu objetivo: destruir o equilíbrio frágil e essencial entre vida e morte.

Eu chamar-lhe-ia antes uma incompreensão. Uma incompreensão da vida. A morte e a vida são a mesma coisa. Como os dois lados da minha mão, a palma e as costas. E contudo a palma e as costas não são as mesmas coisas… Não podem ser separadas, mas também não misturadas.

A Praia Mais Longínqua desenvolve essa cosmovisão dualista que remete ao taoismo – filosofia seguida por Ursulla. A tenuidade dessa ligação é fortemente explanada e entendida por Ged. Ele a utiliza como uma alavanca para o amadurecimento de Arren durante a aventura, o que torna esse volume, além do mais denso, o mais profundo e reflexivo da série.

O amadurecimento de personagens é uma constante no Ciclo Terramar. No primeiro volume tivemos o próprio Ged, no segundo, a jovem sacerdotisa Tenar, e nesse temos o príncipe Arren.

Diante de todas as incertezas da viagem, Arren se vê constantemente mergulhado em incompreensões. Ele vai sendo consumido aos pouco pela tentação da imortalidade. Ela penetra lentamente em seu coração, se aproveitando da brecha aberta pela frustração que ele nutre contra Ged.

Arren é destinado a um futuro grandioso, mas para concretizá-lo ele deverá atingir um nível elevado de compreensão do equilibro que sustenta toda Terramar –  de como tudo se interliga e aceitar o fato de que por mais poderoso que ele venha a se tornar, os seus dias passarão e ele irá alimentar o ciclo da vida e morte.

  

Ursulla eleva em mais um grau a qualidade de sua série em A Praia Mais Longínqua.

Ela reapresenta o seu protagonista de forma simples e direta: ele está mais poderoso e agora é um líder respeitado e admirado – mas não necessariamente feliz.

Essa aventura será uma libertação para o Gavião e uma leitura marcante para os que acompanham a série.

A obra se equilibra no ritmo já conhecido da autora, ora lento, ora corrido e sem atropelos, sem furos, sem pontas soltas, sem perder o encanto e o estilismo da escrita – marcas registradas dessa brilhante escritora.

Se possível, leia o quanto antes a série (não espere pela Arqueiro!), acredite, A Praia Mais Longínqua é alta fantasia feita de forma magistral.

Revisão geral
ÓTIMO
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