Dentre os lançamentos literários marcados para o mês de março, este foi um dos que me despertou muito interesse.

Condernonsi-le-chevalier-cafe-espadasA escolha do autor A. Z. Cordenonsi de fazer a história do seu habilidoso espião, que encara o crime e vai a fundo nas investigações mais perigosas, se passar em uma Paris localizada nos primórdios do século XX e ricamente ilustrada pela tecnologia baseada no vapor, latão e nos cristais de quartzo foi algo bem audacioso e que – apesar de alguns leves problemas – funcionou muito bem.

Le Chevalier e a Exposição Universal, publicado pela Editora AVEC, carrega consigo todas as características clássicas do gênero steampunk, e isso é mais que notório. Essas facetas podem ser observadas nas descrições precisas de cenários e maquinários feitas pelo autor e também em todo o trabalho gráfico da edição: desde a capa às ilustrações da galeria – trabalhos feitos pelos já conhecidos e talentosos Diego Cunha e Marina Avila.

A história de Le Chevalier começa com a capital francesa fervilhando em preparação para mais uma edição do maior evento cultural e tecnológico mundial: a Exposição Universal. Neste evento, cada uma das superpotências mundiais pode mostrar seus maiores avanços no ramo da tecnologia e mostrar mais da sua cultura para os olhos do mundo. A importância desse evento é tamanha que o imperador francês Napoleão III conta com o seu completo sucesso para consolidar a hegemonia da França sobre a Europa, ampliando o poderio e a influência do império sobre o mundo.

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Mas isso não será algo fácil de se conseguir, visto que outros países se empenham para que tudo seja um grande fracasso e a França perca todo o seu prestígio. Não demora muito para que um misterioso assassinato aconteça, desencadeando uma cadeia de acontecimentos que irão pôr em risco toda a população francesa. E é nesse clima denso de espionagem que somos apresentados ao “cavaleiro” Le Chevalier e o seu parceiro legionário e birrento conhecido como Persa.

Cordenonsi conduz a narrativa com muita destreza. Constrói sua história, interliga os acontecimentos, aos poucos apresenta todos os personagens e suas principais nuances, ambienta o leitor em seu mundo pulsante e de movimento ininterrupto sem resfolegar ou perder a cadência que o steampunk lhe exige.

Há vários elementos interessantes e que devem ser observados em Le Chevalier. Um deles é a crítica social que o autor conseguiu incorporar em seu mundo ficcional. Por meio do manuseio do “high tech, low life” – oriundo do cyberpunk – a contradição entre o constante progresso tecnológico e condição de vida miserável da grande massa é retratada sutilmente em alguns momentos. Isso fica mais evidente quando vamos analisar o papel dos Drozdes na narrativa.

A primeira vista, eles aparentam ser somente autômatos em forma de animais que acompanham os seus donos e são capazes de pequenos truques, e que é uma tecnologia acessível a todos. Porém o que vemos é que esses pequenos artefatos traçam a linha sólida que separa os afortunados e poderosos do grande proletariado. O dito “civilizado” do “selvagem”. E isso foi um ótimo recurso narrativo que deu um caráter mais maduro a aventura do cavaleiro espião e seu escudeiro legionário.

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O protagonista esconde um passado nebuloso, marcado por um fracasso que não é descrito com exatidão no livro. Apesar do grande potencial, a personalidade e a essência de Le Chevalier não é completamente cativante. Falta algo mais, um traço chave para torna-lo mais memorável. Esse carisma tenta ser empregado em Persa, o até mesmo na ladra – que é um prodígio da engenharia – Juliette, mas não chega a convencer de todo. Alguns ajustes que com certeza serão feitos nas próximas histórias do espião.

Há a existência de vários ganchos para continuações – sobre tudo no desfecho que faz menção a Rua Morgue, da obra do célebre Edgar Alan Poe. E não é só essa referência que vemos em Le Chevalier. Vários nomes da intelectualidade francesa são mencionados durante a narrativa, entre eles Júlio Verne – o pai dos romances de ficção científica – e o químico e médico Louis Pasteur.

Le Chevalier e a Exposição Universal é uma obra bem despretensiosa. Divertida, ligeira e com uma trama que se desengrena até a última página. Pra quem acha que o steampunk estava parado por aqui no Brasil, Le Chevalier irá provar o contrário. Ele está vivo, em pleno movimento e a todo vapor!

Saiba mais lendo um trecho e visitando o site da obra.

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3 comentários

  1. Caro Victor.
    Muito obrigado pelas palavras e pelos comentários sobre a obra. Fiquei particularmente satisfeito que tenha notado as pinceladas sociais, principalmente em relação aos drozdes.
    O “Cavaleiro a Serviço de Sua Majestade” continuará sua saga. Aos poucos, espero trazer à luz o passado misterioso do nosso caro espião.
    Abraços e agradeço novamente,
    Andre

    • Olá Andre! =)

      Primeiramente parabéns pelo seu livro. Realmente ele é muito bom e me divertiu bastante e que bom que você gostou da resenha rs.

      Fico no aguardo de “Cavaleiro a Serviço de Sua Majestade”. Muito obrigado pelo seu comentário e mais uma vez, parabéns pelo trabalho.

      Sucesso para você. Grande abraço!

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