Maus já é há muito, e por muitos, considerada a melhor história em quadrinhos já escrita. Eu não estou entre aqueles que discordam dessa afirmação. Ela é a única HQ a ganhar o Prêmio Pulitzer, importante prêmio literário. E não é para menos. A narrativa de Maus é muito bem trabalhada e o autor a imerge em um mundo de metáforas e metalinguagem que a enriquecem significativamente, tornando-a uma daquelas histórias das quais entram na categoria de que pode-se sempre notar algo novo a cada vez que se ler.

Podemos notar, de maneira geral, que a história se divide em três núcleos narrativos: a história da própria HQ, a história de sobrevivência de Vladek e a semi autobiografia do autor. Falaremos um pouco de cada.

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Essa história é primordialmente sobre Vladek Spiegelman, um sobrevivente de Auschwitz, um dos piores campos de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial.

A narrativa começa antes do início da Segunda Guerra. Mostra como ele conheceu Anja, sua esposa e mãe do autor e então a narrativa prossegue contando sua jornada pela Polônia tentando fugir dos alemães nazistas. O grande diferencial dessa história das que geralmente são mostradas nos filmes e, em especial, na que é vista na escola, que retratam, geralmente, os exércitos ou operações militares ocorridas na segunda guerra, é que Maus conta a trajetória de um civil desamparado e perseguido tentando sobreviver e salvar sua família.

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A visão que Maus proporciona é em uma escala muito mais individual. De certa forma, mostra até mesmo como era a vida cotidiana dos civis, focando, claro, os judeus e o que eles precisaram fazer para sobreviver.

Dentro deste núcleo maior das narrativas do tempo de guerra o autor insere constantemente uma narrativa paralela onde o próprio autor torna-se um personagem da história. O objetivo destas inserções é fazer um contraste entre o Vladek que sobreviveu à guerra – um homem inteligente e perspicaz – e o Vladek de seu tempo – um senhor de idade carente e doente. No entanto, essas inserções recheiam o livro com metalinguagem, ou seja, a história da própria história.

01-INTERNA_MAUS_CAFE_ESPADASO que é descrito ali são as visitas e encontros do próprio autor com seu pai. Nelas ele o ouvia contar como foram os anos de guerra e como ele sobreviveu, ou seja, a história de Vladek. Notas são tomadas e as conversas são gravadas. Por fim, o que estava sendo escrito era a própria história de Maus. Esse recurso, a metalinguagem, cresce à medida em que o livro avança, tornando-se, às vezes sutis, às vezes bastante claros, mas sempre brilhantes.

Já o núcleo semi autobiográfico é a menor parte na história, porém é bastante enriquecedor. Ele consiste mais nos pensamentos de Spiegelman sobre ou a história ou a pessoa do pai. Além disso, há também a inclusão de uma antiga história em quadrinhos desenhada pelo próprio Spiegelman, que apesar de bastante depressiva e sombria, aprofunda a própria personagem do Vladeck e a relação com seu filho.

A maior prova, porém, de que essa história em quadrinhos é uma grande obra literária encontra-se precisamente neste núcleo. Nas primeiras páginas do segundo capítulo do segundo volume, há uma inserção totalmente diferente das outras, onde o autor, agora não mais retratado como um rato antropomorfizado, mas como um humano usando uma máscara de rato, reflete, sobre uma pilha enorme de cadáveres de judeus, sobre o sucesso de sua revista, a pressão da imprensa e empresas buscando estratégias de negócios.

A profundidade metafórica desses quadros é tanta que é uma pena não poder discuti-los aqui e tirar do leitor o prazer de meditar e descobrir por si só os significados expressados pelo autor.

imageEm suma, Maus é um trabalho único. A habilidade narrativa de Art Spiegelman é inquestionável. Seu uso de metáforas, metalinguagem, a quebra da quarta parede na cena descrita no último parágrafo, a inter-relação entre os núcleos citados, e mesmo outros recursos literários, tornam o livro magistral. Une-se a isso a força da própria história, a sinceridade de seu autor e a vileza da natureza humana.

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