Se pudéssemos dar um nome ao Big Bang do cyberpunk, esse nome seria Neuromancer.

William Gibson marcou a ficção científica com a sua magnum opus lisérgica, criando um novo conceito que rompia laços de influência com tudo o que havia sido feito até então.

A Editora Aleph havia lançado em 2014 uma edição comemorativa de 30 anos da publicação original da obra; um trabalho gráfico no mínimo exótico, que conseguiu expressar visualmente toda a excentricidade e a frenética pulsante do Sprawl criado por Gibson. Agora, ela lança uma nova edição com visual reformulado e mais simples que a edição de dois anos atrás.

Neuromancer emula um mundo cinzento, poluído de pessoas e anarquia.

Neste cenário, onde o high tech, low life (caraterística que se tornou um dos principais estandartes do cyberpunk) se sobressai em cada esquina, vive o ex-hacker Case.

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Conhecido por ser um prodígio no campo da invasão e roubo de informações, ele cai em tentação e comete o pior erro que um ladrão com talento, mas sem vivência, pode cometer: roubar seu próprio chefe. Como punição, ele é contaminado com uma toxina que o impede de continuar suas ações dentro da matrix, e assim conseguir o seu sustento e manter seu estilo de vida.

Forçado a deixar o seu “ambiente de trabalho”, Case começa a viver de pequenos trabalhos e vai parar na sarjeta de uma sociedade já decadente. Mas isso sem cessar a busca da cura para a tal toxina. É quando surge em seu caminho uma “samurai das ruas” chamada Molly e com ela vem a oportunidade de remissão e cura que Case tanto esperava.

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Com o intuito de narrar essa jornada de ressurgimento, William Gibson concretiza – com a sua escrita um tanto opaca – um palco de horrores onde nada é minimamente agradável. O céu, a sociedade, as ruas, tudo exala uma essência que grita por atenção, que pede para ser observada com mais profundidade. Porém a narrativa elétrica de Gibson e os seus vocábulos neológicos criados sob encomenda não permitem essa observação, e ele já lança o leitor no meio dessa baderna, dessa mistura crua de carne, cromo e silício.

Não há uma preocupação em explicar, em mastigar o sentido por trás do Sprawl ou o funcionamento da matrix. Tudo é simplesmente dito. Mencionado sem introdução ou consideração, e isso pode levar o leitor a uma não aderência a trama ou a leitura como um todo. Neuromancer é, acima de tudo, um desafio para o leitor.

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Fazendo contraponto a esse lado complicado da obra, a sensação recompensadora de estar diante de um trabalho criativo tão rico é única. Gibson amplia o debate sobre inteligência artificial de forma primorosa. Expõe a ânsia pela realidade virtual como uma tentativa de fuga da alma humana da suposta prisão que é o nosso corpo. A fusão entre homem e máquina – na obra, algo totalmente corriqueiro – infesta a narrativa e já anuncia as próteses e mãos biônicas que já podemos ver nos nossos dias. Nestes pontos, Gibson exibe sua genialidade.

Neuromancer pode não ser uma das leituras mais fluidas e confortantes. Há quem diga que Gibson peca na sua abordagem, e a forma direta da narrativa destoa com a assimilação total da obra. Todas essas características são totalmente pertinentes a essa obra. Mas o que não podemos deixar de salientar é a sua importância para a literatura mundial – reconhecida com prêmios como o Hugo e o Nebula – e o seu eterno status de clássico revolucionário da sci fi.

Uma história que deve sempre ser revisitada.

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