Recentemente escrevi, na nossa seção de artigos, um texto que falava sobre a literatura de fantasia nacional. Sobre os rumos que ela está tomando aqui na terra brasilis, a força que vem ganhando, a qualidade das obras, o seu nível de amadurecimento e o nível crítico dos leitores brasileiros, que ainda não é lá dos melhores.

Lembro que, sobre a qualidade das obras, falei de que temos ótimos escritores com histórias em potencial, mas que em um cenário geral, precisam de um certo amadurecimento em vários sentidos. Lembro também que no momento em que eu estava escrevendo o dito cujo, procurei algum livro que pudesse usar como referência e dizer “Se possível, sigam esse exemplo…”. Infelizmente, só fui encontrar essa obra um pouco depois de ter inserido o último ponto final na minha dissertação.

Fui apresentado a uma obra fantástica, original e (melhor de tudo) nacional intitulada O Elo, escrita pelos talentosos Marcello Salvaggio e Valerio Oddis Jr.

Eles fizeram com que a minha visão sobre a capacidade dos autores nacionais se ampliasse ainda mais, mostrando que é possível casar a fantasia com temas reais e coniventes com as nossas ideologias atuais e estilo de vida. Claro que o livro não é cem por cento perfeito, como vou comentar no continuar dessa resenha; mas o conjunto da obra é um feito notável e ousado, e a sua leitura é recompensadora.

O Elo – Capítulo I: A Coluna nos leva para um mundo onde o medievalismo convive diretamente com a modernidade. Em determinadas partes da narrativa vemos exércitos onde soldados equipados com espadas e lanças dividem as fileiras com robôs guerreiros e tanques de guerra sofisticados. Toda essa tecnologia é dominada e gerada pelo império de Mammon que domina grande parte do território global. Nesse primeiro volume temos foco em três protagonistas: Erick Donar, um ex-gladiador que se tornou um importante guerreiro mercenário ao lado de Lohengrin, um mentor de uma nova doutrina antropocêntrica; Sofia Simurg, uma poderosa maga ‘quase’ imortal; Aido, um guerreiro virtuoso e humanitário que insiste em não matar os oponentes ao mesmo tempo em que tem que cumprir com o seu dever de proteger seu vilarejo de ataques constantes do império mammonita.

Durante a narrativa, as três histórias se desenvolvem sem nenhum tipo de ligação. E segue dessa forma durante todo esse primeiro volume. Ou seja, os protagonistas não se encontram ou interagem, o que possivelmente foi deixado para o segundo volume O Relâmpago.

Os paralelos entre o nosso mundo e o universo da Trissência são inúmeros. Podemos notar desde culturas e filosofias (orientais e ocidentais) até períodos da nossa história como a Revolução Industrial, A Idade das Trevas e o Iluminismo. E foi nesse ponto que essa obra me surpreendeu de uma forma totalmente inesperada.

A primeira surpresa (para não dizer baque): a escrita. Bem rebuscada, o que sempre deixa a leitura um pouco mais lenta. Mas a condução de narrativa é cativante, com belas descrições de cenários e criaturas surreais. Ora frenética, com cenas de batalhas sangrentas e cruéis, ora morna, dando destaque aos diálogos soberbos e maduros, onde os personagens expõem seus medos e suas dualidades; e é por meio deles que os autores explanam sobre temas polêmicos e que merecem serem discutidos sempre, como filosofia, política e religião.

E o mais importante é que em nenhum momento há uma afirmação de que tal forma de pensar, ou tal forma de governo é a correta. Os autores simplesmente explanam, demonstram a ideia básica e se aprofundam um pouco, mas não ao ponto de fazer o leitor achar que está sendo persuadido a concordar com o que está lendo. E isso não vemos em qualquer obra e, diga-se de passagem, também não é todo autor que tem maturidade para desenvolver esse tipo de narrativa, que não serve só para o entretenimento, mas também coloca o leitor para pensar, ir além da leitura da obra e procurar saber mais sobre tudo o que é mostrado.

Outra surpresa: a aparente ausência de preocupação dos autores (e diria até da editora) em fazer uma edição nos moldes, digamos, mais aderentes ao comercial. Sem apêndices, glossários, ilustrações ou mapas. Mesmo o universo da Trissência sendo rico, vasto e repleto de povos, culturas, governos, costumes e seres mitológicos, o máximo que encontraremos são notas no meio da narrativa falando mais sobre uma religião ou outro elemento da história. Isso me desagradou um pouco, pois algumas (como uma nota enorme sobre a religião cainita) são postas bem no meio de um momento importante do desenrolar da história, atrapalhando o andamento e quase forçando o leitor a “pular” ou voltar para ler depois. Entenda, não desaprovo o fato de não haver anexos explicativos na obra, somente o local onde essa notas foram incluídas. A obra é tão bem construída e provida de debates e exposições de cosmovisões que realmente não carece desse tipo de artifícios.

Aproveitando a deixa, deixe-me falar sobre a edição. Bem simples, porém não muito trabalhada. A Capa não me agradou muito, achei um pouco espalhafatosa e não condiz com a obra em si. Somado a isso temos a estranha divisão do livro: um prelúdio, um prólogo muito extenso (69 páginas!) e três atos, subdivididos em episódios (capítulos). É o caso de um ótimo conteúdo mal embalado. Seria ótimo ver esse livro publicado por uma outra editora, que mantivesse essa essência “fora dos padrões” dos livros de fantasia em geral, mas que investisse mais em coisas básicas como uma capa e uma melhor diagramação.

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Esse primeiro volume deixa muita coisa no ar. Por exemplo, as tais Sahajas mencionadas na sinopse do livro não são mostradas nesse primeiro volume, e o final (meio estranho e aparentemente desconexo) deixa uma tensão grave para o segundo volume. Portanto, se você, leitor, realmente mergulhar nessa história como eu mergulhei, a leitura do segundo volume será uma necessidade absoluta.

Sei que me prolonguei nessa resenha, mas acredite, esse livro deve ser lido. Independentemente de sua religião, linha filosófica ou ideologia política. É simplesmente brilhante a forma como os autores englobaram a fantasia com todos esses elementos que, ao mesmo tempo em que são tão negligenciados pela grande massa, são tão essenciais e devem sim ser discutidos em uma sociedade séria. Mas se você é do tipo de pessoa que acha que “religião e política não se discute” então com certeza esse livro vai ser maçante e cansativo. Então pense bem antes de se aventurar pelo continente de Maya e seus reinos.

Obra mais que recomendada. Saiba mais sobre esse livro no Skoob.

4 comentários

  1. Olá, Bruno, primeiramente agradecemos pela ótima resenha.

    A intenção com este livro foi justamente essa, unir reflexão e entretenimento em uma narrativa que fugisse um pouco dos moldes convencionais. No meu caso em particular, um dos meus modelos principais foi “Duna”, enquanto que muitos autores de fantasia tomam como base “O Senhor dos Anéis.”

    Você tem razão, muitos elementos foram deixados em suspenso para o volume seguinte, como o encontro entre os protagonistas e a aparição dos sahajas.

    Este foi o primeiro livro que escrevi com meu amigo e parceiro de criação Valerio Oddis Jr para o universo da Trissência e também meu primeiro trabalho na ficção como um todo. Portanto, ainda tenho um carinho especial por ele.

    Sobre os anexos, futuramente, na próxima edição, procuraremos analisar essa questão e colocá-los talvez como um apêndice para evitar interrupções na narrativa. Este me pareceu um dos pontos interessantes que você apontou para o aprimoramento da obra.

    Enfim, já havia lido outras resenhas suas, inclusive uma sobre Azincourt do Bernard Cornwell que gostei muito. Parabéns pelo trabalho!

    • Primeiramente, parabéns pelo seu livro. Não só pelo “O Elo”, mas toda a obra do Universo da Trissência, que me parece ser bem interessante como um todo, e tão bom quanto o que resenhei.
      Que bom que você gostou da resenha. O livro realmente me agradou muito, e em breve vou adquirir o segundo volume, e farei e publicarei uma resenha sobre ele também.

      Sobre o que falei com relação a edição foi realmente só pontos em que eu achei que a obra poderia ser melhorada, mas só com relação a edição mesmo, pois o conteúdo já está ótimo!

      Obrigado pelo comentário e parabéns para você e para o Valerio Oddis pelo excelente trabalho.

      Abraço!

    • Olá.
      Bom se autor usa como modelo Duna, já está mais do que recomendado pois é um dos meus livro preferidos. Parabéns pela resenha, você passa empolgação pelo livro, sem deixar de questionar o que não lhe agrada.
      Como fantasia é de longe meu estilo favorito este já entra na minha lista.
      Abraço

    • Olá Fê.
      Que bom que você gostou da resenha.
      Realmente esse livro foi uma agradável surpresa. Recomendo mesmo a leitura e espero o quanto antes ter o segundo volume em mãos. Para saber mais sobre as outras obras do autor e onde comprar o livro, recomendo esse blog: http://www.trissencia.com/

      Esse já está no topo de honra da minha estante (estante ainda que não tenho, mas quando eu comprar, ele vai estar com certeza!)
      Grande abraço! E parabéns pelo seu blog “Fala Urupês?”, muito bacana e já curti a página dele no facebook.
      Até mais =)

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