Em 2013 uma série de HQs ganhava seis Harvey Awards e outros três Eisner Awards – prêmios incomensuráveis no mundo das histórias em quadrinhos. Um feito notável para uma estreia.

Essa HQ era o primeiro volume de Saga, série roteirizada por Brian K. Vaughan (Y – O Último Homem, EX Machina, roteiros de alguns episódios da série Lost e outros trabalhos tanto para a Marvel quanto para a DC Comics) e com a arte assinada por Fiona Staples (Mystery Society, T.H.U.N.D.E.R. Agents e North 40). A série ganhou sua edição brasileira pelas mãos da Devir em 2014 (Volume 1) e em 2015 (Volume 2), com uma edição esmerada, ótimo acabamento, capa dura, papel de qualidade digna da obra e tradução de Marquito Maia.

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Saga é um forte impacto para os desavisados. Um soco no estômago de quem compra somente a sinopse da obra.

Uma galáxia inteira assiste por anos o desenrolar de uma horrível guerra entre duas civilizações: uma habita o planeta Aterro, a outra vive em Grinalda, a lua desse planeta. Devido ao fato de a luta ter causado danos terríveis a superfície do planeta – que era até então o palco das sangrentas batalhas – as duas raças inimigas passaram a batalhar em outros locais da galáxia, estendendo sua luta para outros povos, que nada podiam fazer.

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É em um desses planetas marginais que somos apresentados aos dois protagonistas dessa história: Alana e Marko – dois soldados com uma gritante diferença entre si e, ao mesmo tempo, com algo muito precioso em comum.

Ela pertence ao exército de Aterro, ele ao exército de Grinalda, e ambos são pais da pequena Hazel, que acabou de nascer, bem no meio dessa guerra. Esse turbilhão de lâminas, magia, lasers e sangue do qual seus pais estão tentando fugir.

Alana e Marko vivem um amor proibido. Seus povos – e consequentemente, suas famílias – não aprovam e partem em uma caçada obstinada para destruir os dois traidores. Clichê? Pode até ser, mas Saga é bem mais visceral e frenética do que qualquer história de jovens se envenenando por aí.

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A narrativa, feita pela própria Hazel, possui uma mistura de elementos típicos de sci-fi e fantasia em sua construção central, bem à la Duna, e é em torno dessas características que giram os detalhes da Galáxia e os seres que a povoam. Vários personagens criados pelos autores possuem aparências surreais (algumas que parecem até que saíram de um pesadelo) sendo muito bem expressados nos traços marcantes de Fiona Staples, que só não mostrou o mesmo esmero em ilustrar os cenários onde os acontecimentos transcorrem. Mas tudo bem.

O destaque mesmo em Saga é o seu casal central e a sua química notável e cativante.

Alana é uma mulher linda, forte (isso você já nota na feição dela na capa da HQ), que não vê limites para proteger Marko e principalmente Hazel. Seu jeito desbocado e a ausência de pudor com a sua sexualidade dão o sutil alívio cômico para a trama. Balanceando essa dupla, temos o nem sempre calmo Marko, que tem aquele semblante de pai provedor, sempre pensando primeiro na família.

Ele tem um passado um tanto misterioso, que não é esmiuçado nesse primeiro volume, mas é um dos principais motivos pelo qual está sendo caçado.

Personagens adjacentes como os caçadores de recompensas – chamados de freelancers – O Querer e A Espreita trazem as cenas de ação e levam a perseguição aos calcanhares dos protagonistas. O enquadramento da HQ ajuda na fluidez desses momentos, pois eles se mantêm básicos, sem exageros – o que em Saga funcionou muito bem.

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A obra impressiona. Quando vemos a capa e lemos a sinopse extremamente resumida na contra- capa do encadernado não conseguimos imaginar o que está por vir. Mas ela já deixa bem claro o seu objetivo e o forte impulso criativo logo nas suas primeiras páginas.

Saga é um trabalho brilhante de dois autores também brilhantes. Construído sobre um “mais do mesmo” aparentemente nada original, mas que acaba por chacoalhar a cabeça do leitor e mostrar que não há nada que não possa se reinventar.

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